"Quarenta anos/Não quero a faca nem o queijo/Quero a fome" - Adélia Prado

 

Os questionamentos sobre o processo criativo me acompanham há muito. Por mais que não aparente (ainda tenho minhas dúvidas sobre isso), sempre fui dada a alegrias. Loucura ou coragem. Dois conceitos que me perseguiam ou definiam (dependendo do ponto de vista), sempre. O engraçado é que hoje, vivendo uma verdadeira catarse, buscando respostas e tentando me cobrir de loucura ou coragem, me deparo com as palavras de Adélia Prado que aos 40 anos muda o rumo da prosa da sua vida. E como dona de casa apresenta ao mundo sua faceta poeta. Aos 20 anos ganhei um livro dela (até hoje agradeço ao meu amigo, mesmo em silêncio). Um dos melhores presentes que ganhei. Abriu-me os horizontes. Apresentou-me a uma mulher que eu gostaria de ser. Aos 40, não consigo mais me identificar com quem fui aos 20 e já não sei mais quem sou neste exato minuto. "A crise existencial das mulheres de 40 anos". Um dia ouvi falar sobre isso. Nunca imaginei que fosse possível. Hoje, não consigo ter respostas para nenhum dos meus questionamentos. E, no entanto, preciso responder a outros tantos que recebo das crianças (sou mãe de 3!) incansavelmente 24 horas/7 dias por semana. Cansada, triste e já sem conseguir ouvir aos meus próprios pensamentos. Apenas os sinto como há muito dizia aos outros: "poesia não se lê. Não se entende. Apenas se sente". Sinto tanto e já nem sei o quê. E assim chego aos 40 anos. Sem querer faca ou o queijo. Apenas a fome. Sendo apenas, poesia.    

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