Quando o dia nasce noite

Hoje o dia nasceu noite. Acho que é isso que me incomoda no inverno. Sou mulher do dia e não o homem da meia noite. O problema de quando o sol não aparece é o que se passa aqui por dentro. Tristeza. E ela dói. Dói fundo, profundamente. Por saber da minha propensão em dias como estes, criei algumas práticas para que a tristeza não tome conta totalmente de mim. Tristeza profunda que dura tanto quanto o inverno é depressão. E eu, definitivamente, não quero isso pra mim. Eu trabalho em casa. E, ao contrário do que você possa imaginar, nem tudo são flores. Fazer isso exige disciplina e cuidados especiais. Ainda mais quando o mundo inteiro acha que por eu trabalhar em casa "não estou fazendo nada". E aí começam a me pedir para resolver um monte de coisas ou a agendar compromissos sem me consultar para saber se tenho algo marcado para o dia. É preciso paciência para explicar aos outros que sim: eu faço muitas coisas em apenas 4 horas. Eu preciso deste tempo para estar disponível e a sós com seus pensamentos. O meu tempo precisa ser muito bem organizado para que as coisas funcionem. Afinal, depois dessas 4 horas, nada mais me pertence. Enfim, esta é outra história. Voltando aos cuidados...Para afastar a tristeza, não adianta mesa de bar. Assim, adotei um ritual que me ajuda bastante. Levanto cedo por causa das crianças (tenho 3 filhos). Preparamos, eu e meu marido, o café da manhã. Ajudo a caçula a se vestir. Vamos chamando um por um até que todos tenham sentado em seus lugares para o café com leite e o pão ou os cereais. Mesa do café da manhã deve ser sempre bem arrumada. Eu faço questão disso. Pães em cestas, pratos bem colocados, utensílios coloridos e bonitos. O despertar define todo o resto do nosso dia. Quando as crianças saem para a escola é que eu consigo tomar o meu café. E tento fazer com tranquilidade porque sei que as próximas horas serão um Deus nos acuda. Às vezes ligo a TV para ouvir as primeiras notícias da manhã. Mas, quando o dia nasce noite, prefiro não fazer isso. A TV quase sempre não traz boas notícias. Depois do café, vou me vestir. O meu marido acha engraçado quando chega na hora do almoço e me vê toda arrumada. Ainda hoje me pergunta pra onde eu fui. E entre risos respondo: Trabalhar! Apesar do meu escritório ficar apenas a alguns passos do meu quarto isso não significa que eu tenha de ficar de pijama o dia inteiro. Mesmo quando dá vontade, me obrigo a me vestir tal e qual fosse encontrar outras pessoas na rua. Porque aqui em casa eu sempre encontro a pessoa mais importante do mundo: eu! E isso chama-se amor próprio. Quando o dia nasce noite, dá vontade de esquecer que sou mãe, esposa, dona de casa, escritora. Dá vontade simplesmente de não acordar. Ou de tirar férias de tudo: dos filhos, do marido, dos amigos. E me trancar numa cabana com alguns livros, papel e caneta. Mas não dá. Porque a tristeza dói. E dor não se trata sozinha. Não se cura de dia e muito menos a noite. Menos ainda quando o dia nasce noite. Por isso, mesmo não querendo, me visto e fico bem arrumada para me encontrar. 

 

 

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