Você não está seguro

 

 

​​O dia começa e parece que será mais um dia quente e seco em Brasília como os anteriores. E é. Mais um dia quente e seco como todos os outros dias. E então, os olhos são abertos para que eu realmente veja como os dias são. Assim como acontece todos os dias, minha funcionária chega para o trabalho. Ela está comigo há tantos anos! Alegre, adorável, sempre bem disposta para o trabalho e com um sorriso largo no rosto, honesta, inteligente. Mas, o bom dia hoje foi diferente. Ela chora. A conversa dos últimos dias era a sua mudança para a casa que ela estava construíndo depois de tantos anos trabalhando e guardando dinheiro para ter onde morar. Um lugar só seu. Um sonho como o que tive. Um sonho como o de tantos pelo mundo afora. Um lugar onde se possa descansar o corpo e a mente. Multirão formado. Tijolo, cimento, areia no local. Guardados onde já existia parte da construção fechada e para onde iria se mudar nos próximos dias para dar continuidade às obras. Ontem a tarde, porém, seu celular toca. Vizinhos novos aflitos dizem que a casa havia sido invadida por homens e mulheres armados e que os materiais da obra foram levados. A casa? Estava ocupada. Assustados, os vizinhos já haviam chamado a polícia há tempos, mas até aquele momento não haviam aparecido. Ela chama o marido e avisa a um tio policial sobre o acontecido e todos se dirigem ao Jardim ABC, no Goiás. Passam na casa. Os bandidos a ocupam. Mostram as armas e gritam aos quatro ventos: "quero ver quem tira nois daqui!". Ofensas são disparadas pelas mulheres que ocupam a casa. O sangue corre quente pelas veias. No posto da Polícia próximo a sua casa, ela abre o B.O., mas é informada de que nada pode ser feito. "D. Mirela! A polícia tem medo do bandido! Ficamos lá um tempão e de novo, a polícia não apareceu! Eu pensei que essas coisas só aconteciam no Rio de Janeiro..." Hoje ela mora em São Sebastião, aqui no DF. Considerado um lugar tão perigoso quanto o que ela estava indo morar. O que penso neste momento é que a gente se acostuma com as coisas e por estratégia de sobrevivência nos conformamos e tendemos a achar que estamos seguros. Não! Não estamos seguros! Nenhum de nós! Ela chora e se martiriza achando que essas coisas só acontecem com ela. Passa de vítima a culpada em seus pensamentos. Diz: "vou desistir...". Desistir?! Espera um pouco. Está tudo fora de ordem!  Leis que não funcionam, ou melhor, funcionam para uma pequena parte da população, não para a população de verdade que acorda as 4h30 da madrugada para estar no trabalho bem cedo. Não para a maior parte da população que vê carros de polícia espalhados pelos bairros mais abastados das cidades, mas se escondem dos lugares onde realmente são necessários. Não desista, minha querida. Também não me deixe desistir. Me ajude a diminuir esta enorme cratera que nos separa e que no entanto, todos os dias, nos suga a todos para dentro dela. Talvez eu não seja tão forte quanto você e estou muito confortável por aqui. Por isso, me acostumei a ler notícias no jornal e na minha timeline do facebook oua  assistir a TV, a ouvir notícias no rádio e achar que tudo isso está longe demais de mim. Está no Rio de Janeiro, no Jardim ABC, no Goiás ou chegando um pouco mais perto, em São Sebastião. Mas não. Não está tão longe. Você faz parte da minha vida e está todos os dias dentro da minha casa e da minha família. E isso nos aproxima e nos leva para o mesmo lugar. Não, minha querida. Não desista. Eu sei. Você não está segura. Nenhum de nós estamos. 

 

 

  

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